CHANSON D'AUTOMNE

Les sanglots longs
Des violons
De l'automne
Blessent mon coeur
D'une langueur
Monotone.

Tout suffocant
Et blême, quand
Sonne l'heure,
Je me souviens
Des jours anciens
Et je pleure.

Et je m'en vais
Au vent mauvais
Qui m'emporte

Deçà, delà,
Pareil à la
Feuille morte.

Paul Verlaine
CASTELOS DE VENTO: a sombra do vazio

segunda-feira

a sombra do vazio




Dead Can Dance - "The Host Of Seraphim"



trago comigo o grito da águia solitária
esse brado lancinante e selvagem
que ecoa pelos desertos de todas as miragens
em cujas dunas de poeira vento e memória
escorrem e perduram inteiras
as cinzas das minhas mágoas.





a sombra do vazio


viajo num reino de sombras e claridade.
um reino de alucinações efémeras
que deslumbram os precipícios e os astros.

caminho sob os relâmpagos
que flagelam os despenhadeiros da escuridão
e vogo insone pelos espinhaços nus da noite
numa nave sem âncora e sem mastros.

encontro-me no ponto exacto do labirinto
onde as folhas perdidas mudam de direcção.

ouço a minha respiração ofegante.
sinto o batimento do coração
e tenho a percepção distinta
de que me perdi e não te alcanço,
caminhando vacilante
contra a eminência de todas as manhãs
nas asas de um vento estranho
sem norte e sem esperança.

com fome e sede tantálicas
navego à deriva rente aos escolhos
e meandros das esquinas do tempo
e soçobro nas águas turvas que me cercam.


como uma flâmula azul tremulando
sobre o espectro do mastro da mezena,
só um lugar geométrico permanece.

a saudade lisa e nua da sombra da tua sombra
entardecida sobre os nocturnos vértices
do vagante vulturno.

26 Comments:

Blogger anatema said...

Y en todo ese laberinto de extrañas sensaciones, ese amargo nudo que atenaza, justamente, detrás del esternón, que no encuentra alivio ni consuelo porque la saudade es interminable y la incompresión arrebatadora.

Si yo pudiera invocaría a las hadas de mi infancia para que te trajeran calma, para que se produzca el milagro que necesitas. Ahora. El milagro que necesitamos alguna vez. En algún momento determinado.

Todo es reparable menos la muerte.
Ojalá que todo llegue antes.

Un abrazo amigo.

7:03 da tarde, julho 27, 2007  
Blogger un dress said...

depois de anatema...pouco mais a dizer.

dito doutra forma e ainda...

como se me mostram e revelam cada vez mais pobres as palavras...

cada vez mais pobres. a dizer a sombra o amor a dor...que não querem ser ditos mas tocados.

e no entanto ficaram. elas.
em mim.

ficou inscrito tanto que li
(re)colhi senti pro.fundamente das tuas penumbras.
das penumbras todas.
que reconheço.
(in)transmissíveis...

que "todo es reparable menos la muerte"...


beijO.zénite ~~

12:08 da tarde, julho 28, 2007  
Anonymous maria m. said...

este poema é lindo e é de uma inteireza!

«encontro-me no ponto exacto do labirinto/ onde as folhas perdidas mudam de direcção.» isto é muito muito bonito

todos caminhamos penumbras, algumas interiores, algumas de fora que sobre nós teimam...

(muito boa a escolha do video)
parabéns pelo post!

8:41 da tarde, julho 28, 2007  
Blogger un dress said...

...e como são belos na minha memória e na minha realidade os ecos das asas das águias sobrevoando solitárias o planalto as montanhas...

infindável.chamamento.flamejando!!



~~ beijO

4:41 da tarde, julho 29, 2007  
Blogger Zénite said...

Anátema

Sim, “todo es reparable menos la muerte”.
Permito-me acrescentar: "Quase tudo".

Gosto muito de “las hadas de tu infancia”. :)

Um abraço e o meu obrigado.

_____

Un Dress

Sim, revelam-se cada vez mais pobres as palavras (por enquanto, falo só das escritas). :)

Também, que esperar destes estranhos entes
que no princípio eram argila
depois chumbo fundido
e hoje nada mais são que
translúcidos fantasmas
que flutuam indemnes
pelos espelhos indiferentes
de um cristal de vídeo de brilho intenso?
Entanto, sempre vestidas de veludo e farpas!

Belos os ecos das asas das águias sobrevoando solitárias
sobre a memória inicial.

Beijo, Un Dress, e obrigado.



Maria M.

“todos caminhamos penumbras, algumas interiores, algumas de fora que sobre nós teimam...”

É-me grato ler-te. Aqui e no teu espaço tão harmonioso e pleno de sabedoria. Falo do teu blogue.

Grato.
Um abraço.

10:53 da tarde, julho 29, 2007  
Blogger Maite said...

Caro Zénite

Estava aqui a pensar...se há forma de gastar as palavras, elas já estariam gastas depois de tantos milhares de anos a serem usadas. Mas pelo contrário, as palavras continuam a ter a capacidade de surpreender-nos, ou serão os poetas? :)

Boa noite para si e um abraço

12:21 da manhã, julho 30, 2007  
Blogger Zénite said...

Cara Maite,

Creio que todos nós somos arrumadores de palavras, mas só os Poetas as sabem arrumar como ninguém. Como o nosso saudoso Eugénio. Aqui:

Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.

Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro;
era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.
Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes.
E eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.

Mas isso era no tempo dos segredos,
era no tempo em que o teu corpo era um aquário,
era no tempo em que os meus olhos
eram realmente peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.

Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor,
já não se passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.

Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.

Adeus.


Eugénio de Andrade

Grato pela visita.
Uma noite tranquila, amiga, e um abraço.

12:45 da manhã, julho 30, 2007  
Blogger teresamaremar said...

"(...)
ouço a minha respiração ofegante.
sinto o batimento do coração
e tenho a percepção(...)"

porque há vida

ainda que esta, como as palavras, se vista "de veludo e farpas"

Como seria se a sombra fosse branca?

3:01 da manhã, julho 30, 2007  
Blogger Zénite said...

Teresamaremar,

seríamos, talvez, estátuas de cal,
gelo, bruma, fantasmas de pedra,
argila, poeira fina, sal, espuma,
ou tão-somente o que sou:
coisa nenhuma.


Aquele abraço e o meu obrigado pela tua presença e palavras.

11:26 da manhã, julho 30, 2007  
Blogger anatema said...

"Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor,
já não se passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração."

Amigo mío. No hay nada más triste
ni que produzca mayor soledad que la certeza de estos versos.

Me pregunto: ¿qué es lo que sucede para que se llegue a este abismo, a este pozo oscuro y sin final, cuando se estuvo en la cresta más alta del "Everest" y todo era luz...?

5:55 da tarde, julho 30, 2007  
Blogger lobices said...

...amigo, venho agradecer a tua amável visita e retribuir o abraço "duplo" :)

8:14 da tarde, julho 30, 2007  
Blogger Rosa Brava said...

E o meu coração aperta-se a cada momento e, recordo paragens áridas de tempos sem tempo, na secura dos corações que nada fazem, para um raio de esperança se soltar nos corações feridos.

Ah como mitigar esta dor, que me dilacera o coração, já vazio de esperança quando olho, os olhos negros das crianças sem nome?

Um abraço carinhoso

5:25 da tarde, julho 31, 2007  
Blogger Maite said...

Caro Zénite

De palavra em palavra
a noite sobe
aos ramos mais altos

e canta
o êxtase do dia.


Eugénio de Andrade

Gosto de passar por aqui :)

9:10 da tarde, julho 31, 2007  
Blogger Zénite said...

Anatema,

Eternos escravos dos nossos labirintos
voamos no sopro da dimensão esquecida
quais loucos ícaros de asas consumidas...
e depois resvalamos pelos aclives
do Everest ou do Olimpo,
onde nos guindámos. :)

Aquele abraço.
___

Amigo Lobices

"Duplo" abraço apertado e obrigado pela visita.
____

Cara Rosa Brava"

Belas palavras, que agradeço.

Carinhoso abraço.

_____


Cara Maite

Grato pelas palavras e pela visita. É para mim uma honra recebê-la em minha humilde casa.

Abraço.

11:43 da tarde, julho 31, 2007  
Blogger teresamaremar said...

seríamos, talvez, estátuas de cal,
gelo, bruma, fantasmas de pedra,
argila, poeira fina, sal, espuma,
ou tão-somente o que sou:
coisa nenhuma.



O Ponto

Mínimo sou,
Mas quando ao Nada empresto
A minha elementar realidade,
O Nada é só o resto.


Reinaldo Ferreira

2:45 da manhã, agosto 01, 2007  
Blogger Zénite said...

Cara Teresamaremar,

Gosto das fragmentações, em valores discretos, levadas a cabo por Reinaldo Ferreira, em que o nada ou o resto são gestos de partição. :)

Como no seguinte excerto do poema "Vivo na esperança de um gesto":


Vivo na esperança de um gesto
Que hás-de fazer.
Gesto, claro, é maneira de dizer,
Pois o que importa é o resto
Que esse gesto tem de ter.
(...)


Grato pelo poema.

Abraço.

1:50 da manhã, agosto 04, 2007  
Blogger Afrodite said...

A tua escrita é de tal maneira bela, que dói.

7:36 da tarde, setembro 20, 2007  
Blogger Gi said...

Um pedido de esclarecimento


Faz tempo que não passava por aqui
já não é a primeira vez que o digo que a sua poesia, embora muito bela me soa sempre estranhamente familiar.

Hoje tenho uma dúvida (grande) que gostaria de ver esclarecida se fosse possível , para afastar uma série de dúvidas que se me colocam .

Deixo aqui o poema

Penumbra


Viajo num reino de sombras e de claridade.
Um reino de alucinações efémeras
que deslumbram os precipícios e os astros.
Caminho sob os relâmpagos
que flagelam os despenhadeiros da escuridão
e vogo pelos cantos nus da noite
num navio sem âncora e sem mastros.

Ouço a minha respiração ofegante.

Encontro-me no ponto exacto do labirinto
onde as folhas perdidas
mudam de direcção.

Sinto o batimento do coração
e tenho a percepção distinta
de que me perdi e não te alcanço,
e que deliro ao longe, na distância,
sob as asas sibilantes dum vento
vulturno e sem esperança.

Komarov


O poema está publicado na net há um bom par de anos ...


esclarece-me ? por favor?


Grata

4:52 da tarde, setembro 21, 2007  
Blogger Zénite said...

Cara Gi,

Eu é que agradeço.

Compreendo muito bem a sua pergunta, que tem todo o direito de fazer, e terei o maior prazer em responder-lhe, porquanto creio não ser plágio copiarmo-nos a nós próprios. :)

O pseudónimo Komarov, que consta do site que visitou, pertence-me, assim como me pertencem, nesse mesmo site, os seguintes:

Altair/Altair de Ipanema, onde destacarei o post "Guerras da Mesopotâmia"
Eros 100
Hadad
Musicista
Cavaleiro Negro
Taranis
Gryphus
Sadalsuud
HBerlioz
ThomasMore
Advérbio… entre outros. :))

Grato pelas suas palavras.

Um abraço e um bom fim-de-semana.

P.S.: pensava silenciar-me por uns tempos, como o disse há pouco à amiga Anátema, mas antes de o fazer terei muito gosto em deixar-lhe, no site a que aludi, algo que a certifique de que o Komarov e o Zénite são uma e a mesma pessoa. Não o posso fazer agora, dado que tal site se encontra em manutenção técnica. Mas fá-lo-ei, com todo o gosto, logo que possa.

----

Quanto ao interregno de silêncio a que me proponho, deixo aqui o comentário, esperando que a amiga Anatema não se importe:

Zénite disse...
O silêncio é o guardião da nossa força e também da nossa fragilidade.
Por vezes enobrece-nos. Outras tantas nos escraviza, perturba e envergonha.
Trago aqui, a propósito destas últimas palavras, a célebre frase de Martin Luther King:

"O que me preocupa não é o grito dos violentos. É o silêncio dos bons."

Sábias, como sempre, as tuas palavras poéticas.

Beijo, amiga, e que Deus (ou os deuses) te acompanhe (ou acompanhem). Sempre.

P.S.: a propósito de silêncio, penso guardar o meu por uns dias, na arca do Outono que o equinócio me entregará depois de amanhã.

6:05 da tarde, setembro 21, 2007  
Blogger hora tardia said...

vazio assim não existe.


fica cheio. de um som que ecoa.


___________________.

6:25 da tarde, setembro 21, 2007  
Blogger Gi said...

Zénite

Em primeiro lugar obrigada pelo que lá deixaste. Muito belo.

Agradeço também a explicação. Dou-me por satisfeita. Pouco escrevo mas leio muito e, embora a memória já não seja o que costumava ser , tenho facilidade em reter frases ou imagens que me tocam particularmente. Agora não tanto mas costumava passear por aquele espaço , daí estar familiarizada com a tua escrita. Julguei-te mais velho pela maturidade da tua escrita, já na altura o pensava.

Quanto ao plágio ... a Margarida rebelo Pinto também acha isso :)
(brincadeira)

Um beijinho e bom fim de semana.

4:26 da tarde, setembro 22, 2007  
Blogger un dress said...

belO........................






beijO........................

10:39 da tarde, setembro 22, 2007  
Blogger Ana Paula said...

Muito bonito, o post. :)
Fica-se com a sensação exacta, de forma poética contudo, da tremenda tarefa que temos ao transportar connosco o mundo. Para continuar a ir em frente... Sensação perfeitamente obtida com as imagens do video.
Gostei imenso. Obrigada.
Bom domingo!

5:58 da manhã, setembro 23, 2007  
Blogger isabel mendes ferreira said...

sem mais. para dizer.


colhi este "silêncio" não liso.


anguloso.


dúctil.


levo a respiração.



_______________

cordialmente.

8:08 da tarde, janeiro 28, 2008  
Blogger Nanny said...

...e não me encontraste lá? Ando por aí perdida num labirinto de emoções, se não é este é muito parecido... se me encontrares por aí, estende-me a mão e saberei que és tu...

Um beijo

5:55 da tarde, fevereiro 03, 2008  
Blogger Zénite said...

O meu obrigado a todas as visitas que por aqui passaram.

6:35 da tarde, fevereiro 15, 2008  

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